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Tempo criança, não sem tempo - Odemar Leotti
Gostaria de recuperar o tempo de infância para entender o quanto vivi. Vivi mais tempo do que vivo nos meus tempos adultos. Cada segundo foram de uma intensidade sem igual. Por mais que tivesse sido excluído da distribuição de brinquedos soube criar minhas ferramentas de fantasia. Cada pedaço de pau, de madeira, de lata em poucos segundos transformavam-se em brinquedos, ou melhor, transformavam em objetos de um eu adulto: a imitação do adulto se dava com o que dispunha essa criança expropriada. Uma lata de sardinha virava uma carroceria de caminhão, um carretel virava rodinha, tábuas viravam pontes, chassis de caminhões. O tempo foi passando e o espaço da casa tornou-se pequeno e conseqüentemente fui explorando novos espaços e novos amigos. Os brinquedos tornaram-se mais ousados, mais encorpados: estilingues, caminhões fortes com feche de molas, com rolamentos no lugar de rodas, lambretinhas de três depois de duas rodas. Vieram os “corguinhos”, as turmas, as guerras de meninos. Veio o campinho e o primeiro jogo de camisa: a do Vasco da Gama. Veio a bala e aí... Perdida, achou-me, teve finalidade que justificasse o valor da ação na bolsa. Garantiu empregos, como tudo vira isso. Fez tudo isso se perder para sempre. A criança virou um canto de notícia no jornal. E atenção para a próxima notícia...
Foto: http://www.juntaex.es/consejerias/bs/varios/images/infancia.gif
Escrito por oleotti às 00h20
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