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PIRATA VIDA - Odemar Leotti

Mando-te um disco pirata... Um pirateado manda um pirata... Corsários do mar, piratas da rainha. Serviçais dos reis, guardas dos portais. Eis aqui perante vós, além do espaço além dos tempos. Pois resistem ao tempo, travestem-se, transformam-se tais como ilusionistas do tempo e do espaço, impelem-se contra nossos corações, confortando-os como se realmente os amassem. Mera ilusão, dilaceramento. Como hienas de carnes sobrepujadas por feras maiores, rasgam nossos despojos, arrastam nossas dilaceradas carnes pela poeira de uma terra violentada. Eis - me aqui senhor dos tempos, deus do altar das verdades. Salvem os propositores do saber das badaladas do nosso coração. Cá estamos piratas, flagelados, capengas, caolhos, mas caminhando por estradas não construídas por nós, pelas quais esfolamos nossas mãos e joelhos para conseguir garantir o direito de caminhar. Cá estamos, nos todos piratas. Vida pirata: criança pirata, filho de uma mãe pirata, que leva uma vida pirata, cronometrada por um relógio pirata, com sua roupa de marca pirata, com um baton pirata, com uma comida pirata, com um sentimento pirata, corsários do mar da rainha, não mais o mar de Deus. Caminhamos nós os piratas, ouvindo nossos discos piratas, ouvindo nossos pais de santo, nossos curandeiros, nossas rezadeiras, nossas benzedeiras, todos piratas. Piratas que curam crianças piratas, mulheres piratas, velhos piratas, que as pagam vendendo salgadinhos com condimentos piratas que recebem passes de ônibus, serviçal com dinheiro pirata. Depois de tudo que um dia pirata me transtorna, vou ao bar beber em uma cristal renegada pelo corrupto por ser pirata, e aí bebo um cálice pirata que vai entranhar meu fígado pirateado por invasões mil de comidas e bebidas piratas, carregadas de agrotóxicos, agro donos, agro-canalhas, agro-assasinos, edulcorados por propaganda que transforma vilão em rei, esse publicitário que seqüestrado vai embora do Brasil, e empacota vários pares de sapato, comprado com dinheiro que ganhou nos ensinando comprar gato por lebre. Pirata que mata a torto e direita e esquerda porque não puderam ter a oportunidade de entender por que um ministro economista não resolveu seu problema de saúde. Pausa para beber uma cerveja que não é pirata. Estou refeito do ódio, mas não refeito da indignação de ver olhares tontos, tristes passando em seus caminhares incomodando com seus cheiros os olhares de almas dos que também não tiveram chance de escolher um caminho próprio. Filhos de ricos que um dia também foram crianças, e que não são maus e sim produtos de uma racionalidade que os fizeram piratas do rei, corsários da rainha. Não devemos odiá-los. Devemos combatê-los como tais nos combatem. Que desconexo que virou a vida, que paradoxo, trocar o saber que pagamos para ter e não temos e quando temos é com desprezo, com desdém. Ouvir a felicidade de alguém que pagou o médico qualificado pela verdade que foi-nos negado, e que buscamos em nossos saberes longínquos e hoje tidos como pirata. Buscar as raízes hoje piratas, raízes de pau, da memória dos fragmentos que nos negam e que teimamos em manter. Mantidas sob uma saraivada de balas dos que desprezam saberes que alem do seu tempo, vivendo sob clandestinidade classificado na desrazão, ainda teima arrastando entre balas e salvando os seus. Clamamos ao oráculo de Delfos, conclamamos ás mães de santo, aos curandeiros, aos xamãs, aos conselheiros, às guardiãs das memórias: vigília eterna.
Foto: www.xtec.es/trobada/carnaval03/imatges/pirata.gif
Escrito por oleotti às 22h31
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