ODEMAREAMIGOS
  HUMANA SAGA - Uirá Escobar Aliotti

Nasceu um dia um homem, com origem indefinida, em condições ideais de temperatura e pressão. Cresceu animal, inventou a linguagem, e depois a opressão. Nunca esteve solitário, se reproduziu, se relacionou, guerreou, matou. Viveu da caça, da pesca, da coleta, do cultivo, da cultura, do vapor, até do amor. Inventou a máquina, inventou um deus. Chorou tantas mortes, comemorou tantas outras. Constituiu uma família, uma tal célula mãe de uma tal sociedade. Um homem um dia comprou, vendeu, roubou, doou, achou, esbulhou, usou, abusou de algo que chamou de propriedade. Consumiu o canto de uma sereia. Vendeu a própria roupa, a própria mãe, a própria alma. Perdeu a paz, a luz, a calma. Destruiu rios, matas, bichos, povos, etnias, valores e muros. Construiu templos, grades, leis, jaulas, estádios, monumentos e muralhas. Sempre foi um grande homem, às vezes não. Ele lutou, jogou, amou, odiou. Mas um homem também meditou, jejuou e esperou. Cantou o cântico dos cânticos, leu o livro dos livros, adorou o mestre dos mestres, tropeçou na pedra filosofal. Um homem saiu da caverna, se equilibrou em duas pernas, edificou lares, hospícios e tabernas. Mas o mito não estava na caverna, a sombra é a essência! Um simples homem, deveras complexo. Muitas vezes foi herói, tantas outras um louco. A diferença? Indizível. Um homem cruzou o planeta, conquistou muitos povos, saiu em busca de outros, no espaço. Não foi capaz de admirar-se com a sua própria humanidade. Um homem e suas companhias, internet e celular. Afeto digital. Um homem do futuro. Futuro incerto, extermínio étnico, hecatombe nuclear, suicídio em massa, a televisão e a desgraça. Tudo em tempo real. Um dia um homem, e seus valores, passou pelos outros e nem olhou. Estava repleto de si, apesar de não saber quem era, de onde veio e para onde ia. Um mega investidor, advogado renomado, líder político habilidoso, intelectual respeitado, religioso fiel, pai exemplar. Naquela manhã, como em várias outras, porém pela última vez, um homem se dirigiu ao interior de seu frio escritório. Estafado, porém muito ativo, subiu ao oitavo andar. Desejou um bom dia vazio e genérico a quem, sabe-se lá quem, por força do destino cruzou seu caminho naquela manhã. Em sua sala, atacado por forte labirintite atirou-se pela janela. E ao cair seu corpo se...

Autor: Uirá Escobar Aliotti, formado em Direito pela Unemat-Universidade Estadual de Mato Grosso. Atua como advogado em Cuiabá. Caracteriza-se por sua luta por um país que não exista o triste contraste entre a opulência e a miséria.

Foto:www.oblogdorapaz.blogs.sapo.pt/arquivo/omedo.jpg



Escrito por oleotti às 21h34
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  A LAMA NOSSA DE CADA DIA - Paulo da Vida Athos

Se em razão das mortes de nossas crianças a população saísse às ruas, nua de roupas e de medos, fazendo com que governantes e legisladores buscassem abrigo e tentassem se proteger de uma sociedade insurreta, eu entenderia como um ato de lucidez que deveria ser compreendido e acatado de forma imediata.

Loucura para mim é a insanidade social que se traduz em omissão; é o oportunismo de nossa mídia covarde que apenas divulga essas mortes para vender seu peixe, dando mais espaço para os dossiês escroques do que para cobrar um basta a esse morticínio injusto e tão injustificável quanto nosso silêncio conivente e covarde.

Karine dos Santos Silva, uma menina de 12 anos, está internada desde ontem, 20/10/2006, no Hospital Carlos Chagas, por ter sido atingida por uma bala de fuzil que atravessou seu lado direito e saiu em suas costas. Karine, que levava ao colo a prima de um ano, caiu na Rua da Lama na Favela de Acari por volta das 12h54m dessa sexta-feira.
Mas ela não caiu na Rua da Lama sozinha. Caiu porque sempre esteve sozinha. Caiu e levou todos nós. Sim, senhoras e senhores, somos partícipes dessa barbárie sem fim e estamos com lama na cara.

Uma sociedade mais séria já teria colocado um fim nessa prática criminosa de invasões em nossos guetos por nossa despreparada polícia - que ainda não se libertou do bafio de fera com que se impregnou durante as práticas aprendidas em nossos governos antidemocráticos.
Levar fuzis e carros blindados - os Caveirões - para invadir nossos guetos é que é insanidade. Não importa de onde saiu a bala. Importa tão pouco, aliás, que a autoridade policial da 39.ª DP afirmou que "- Não teve perícia porque não pedi". Certo, doutor, perícia para quê? Todo mundo é culpado: traficantes, policiais, todos nós no mesmo saco.
Se a polícia não age com inteligência - e falo aqui no termo técnico - evidentemente que essas mortes continuarão a acontecer. É preciso que se use estratégia, inteligência, a mesma que colocou os mais famosos traficantes do Rio de Janeiro nas prisões: sem tiros e muitas dessas prisões fora dos limites do Estado e, em uma ou outra ocasião, até fora das fronteiras brasileiras (quando se criou até um incidente diplomático).
Segurança Pública no Rio de Janeiro é ficção. Essa foi a sexta criança vitimada desde setembro. Onde não há garantia não há direitos e onde não há direitos garantidos grassa a violência e a impunidade. Mas se há esse desgoverno na polícia fluminense, é em razão do desgoverno em que sempre vivemos.

Excetuando-se o período governado por Leonel Brizola quando tais práticas eram proibidas (o que não se podia fazer na transparência da Avenida Vieira Souto, não era permitido nos sombrios desvãos das favelas - e por isso foi tão criticado à época), essas mortes prematuras de nossas crianças e de inocentes são freqüentadoras de todos os outros governos.

A naturalidade com que a sociedade está tratando essas mortes dá asco. O que me enoja é ter a certeza de que se tais mortes estivessem acontecendo na da zona sul do Rio (o que não desejo em nenhuma hipótese vez que crianças para mim são isso tudo mesmo: crianças), logo logo teríamos a classe média nas ruas tangendo movimentos sociais, e a mídia, sem pudor e prevendo seus lucros, expelindo seu fel contra essa política de cadáveres que foi estabelecida.

Certamente que enquanto as "invasões" continuarem as mortes continuarão. E é justamente isso que tem que ser mudado.

A política irresponsável de invasão deve ser substituída imediatamente por uma política de ocupação pelo Estado. Ocupação com saúde, escola, saneamento básico e, claro, segurança. O mínimo que do estado se espera é que ele não seja o assassino, que ele não seja o bandido, e é justamente esse o papel que assumiu em nossas favelas.
Ou alguém acha que um homem que invade uma casa, arranca, seminus, da cama, o pai e a mãe de uma criança, no meio da madrugada, revira seus móveis e gavetas, esculhamba tudo e ainda xinga seus pais, trabalhadores, depois vai embora sem nem ao menos pedir desculpas, é olhado como o que por aquela criança? Para piorar no outro dia o traficante passa, lamenta o que policiais fizeram naquela casa, de tardinha troca tiros com aqueles caras que ridicularizaram a vida do moleque, e coisa e tal, sem sectarismo, respondam:-para a criança: quem é o bandido?  Provavelmente um ou outro imbecil de plantão vá-me "ofender" com o bordão de "defensor dos direitos humanos" e intitulando-se a si próprio de "defensor dos humanos direitos", nesse jogo de palavras tão sem propósito quanto revelador de ignorância. Defender os direitos humanos é defender o Estado Democrático de Direito, sem o qual não há democracia. Bem, claro que há os saudosistas. Mas esses podem ir de pronto, com a licença daqueles que me lêem, à merda. Não sinto saudades de ditadura. Muito menos sinto em meu rosto os respingos de lama da Rua da Lama, em que tombou Karine...

Fonte: http://paulodavida.blogspot.com/

 

Foto:www.nebardi.wordpress.com/files/2006/02/Bastajpeg.jpg

 



Escrito por oleotti às 21h42
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