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GRAVANHAS Ou Espíritos sujos de chão - Odemar Leotti

Poética é um lugar indizível, indivisível, indiviso: lugar da poesia, da criação provisória e sempre provisória numa luta infinda, como um fluir constante de existências insondáveis. Lugar não-lugar, ainda e sempre um não-ser sendo do lugar. Lugar como centelhas de não-lugares, centelhas que faíscam como no tilintar das espadas. Espadas que não voam, não faz vibrar suas lâminas de aço a não ser pela vontade guerreira de seu empunhador. Faíscas, eis a poesia, lugar do perigo, do saltar para pensar no ar. Esse lugar onde a vida é forma de exercício de um poder incontido e incomensurável. Somos esses exercícios feitos de toque nas palavras assenhoreadas, de palavras apropriadas peã nossa estética de recepção, que fazem nascer e desaparecer sentidos, num fluir constante e ininterrupto. Faíscas, eis a poesia se pondo em abundância pela vazão aos jorros da vida como fluxos impulsionadores. Faiscando a alimentando o fogo da paixão, esse lugar perigoso que nos espreita e que só nele é que se exerce a vida. Somos frutos destes ocasos, e ocasos criamos para fugir do perigo da estagnação do ser. Fugir sempre do terror da indigência do ser, eis nosso destino. Pegar o fardo e ir. Eis o nosso destino! A vida é esse fardo constante de inventar um invólucro onde possamos armar nosso ninho. Onde possamos nadar na vida. É nessas águas que se formam as tribos, os grupos, os mais pequenos e as imensidões dos grupos. É nessa água que nadamos, na nossa língua, na linguagem que criamos para nela construirmos, de forma ingênua, nossa morada na vida. Deixar as palavras na dança dos espíritos que nos religam ao chão que pisamos, deixai esses espíritos tocarem as palavras, se apoderarem das coisas e fazer mundo. Sentimos nessa hora do perigo do salto, do jogo, como um timoneiro assustado entre o medo das tormentas e a vontade de nelas se lançar. Olhos estupefatos, tremor no coração: memória silenciosamente guardadas; de/coração. Como dizia o poeta: o que vai ficando para traz volta pela recordação, como um voltar pelo coração, num buscar de partes do mosaico da alma de nosso viver. Mimeses-elos, mimeses como líquido vaginal que se mistura com o sémem do homem, num sacolejar delirante da efetivação de uma dança da vida. Uma dança de semens e de óvulos. Células dando sim a vida, sabendo do enfrentamento da moral racionalizante que tenta criar no ser o empuxo para encarcerar seu fruto: o ser vivente. Conter o impulso, distribuir o prazer numa esteira de controle para somente procriação. Como lembrando de Clarice Lispector, a vida começa com um sim: uma célula diz sim a outra célula. Eis a vida! Depois se instaura uma moral e diz não a tudo que seja o impulso do desejo. Eis o fim! Eis a mumificação da vida... Dizer sim à vida é lutar para que ela não se petrifique. Deixar células em funcionamento para que a vida se dê como no tilintar das espadas da vida dos seus guerreiros. Ser bom não é ser manso de coração, ser bom é ser guerreiro. Só os guerreiros é que acendem as chamas dos corações de suas amadas.
Palavras: tudo começa com essas palavras. Assenhoreadas pelos espíritos enxertam as coisas num sacolejar constante. É o fluxo Holderliniano de uma vida que se dá pela abundância. Semens e ovários, sexualiza a ação, quebram palavras, junta-se signos, suja-se de chão. Ah, agora sim! A poesia enfim como um espírito sujo de chão, como afirma o poeta Manoel de Barros, como “Gravanhas”, como o rio do menino pantaneiro, que na poética do espírito e chão, chorou em poética se incorporando no seu ser menino quando viu invadido seu ser pela palavra da ciência que fez seu rio deixar de ser uma cobra de vidro para virar uma enseada. Para sua tristeza aquela “cartilha científica”, matou sua “cobra de vidro” ao obrigá-lo a decorar para provar que ela era na “verdade”, uma enseada. Nunca mais viu sua “cobra de vidro”: ela foi (dês) poetizada pelo saber verdadeiro sobre as coisas, sobre o lugar que o fazia nadar o dia inteiro. Nunca mais viu a sua “cobra de vidro”. O fantasma do professor passou a habitar aquela imensidão das águas. A ciência parecia querer tirar a criança sua “perdição” entre ela e a natureza, queria tirar e foi lhe matando por pedaços, roubando-lhes o encanto. A ciência, como afirma o poeta, pode descobrir as verdades sobre as coisas, nunca poderá descobrir, nem se deliciar com seus encantos.
Portanto, as palavras e espíritos se formam na tríade do santo que se enlameia para se formar. Céu e terra em completa perdição. Chão e clarão a erguer-se com os olhos estufados do menino como o nadador que sai com os olhos vermelhos estufados depois de um longo mergulho nas profundezas das superfícies através da embriagues mundana. Relembrando Barros: GRAVANHAS!
Foto:www.escaner.cl/escaner16/lector16a.jpg
Escrito por oleotti às 10h26
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O NOBRE E O POBRE - Odemar Leotti
O que é o ato de nascer a não ser tomar posse de um mundo infindo e belo. Porém quando nascemos não escolhemos o lugar desse ato e nem mesmo a forma de nos apossarmos deste mundo. Nascemos em um mundo já pronto e criado à medida dos homens. Tanto faz, um como outro homem nasce cada qual no lugar a ele reservado. Uns nascem na fartura material e por ironia do destino vive na miséria artística que faz com que sua vida seja abundante de comida, de roupa, de conforto. Porém sabemos de tantas notícias do paradoxo que não se quer falar. O paradoxo é que em dado momento da vida se pudéssemos radiografar os sentimentos de cada um veríamos alguém sorrindo em um barraco de favela, ou mesmo doando ao vizinho um copo de arroz, café ou dividindo o dinheirinho para o outro comprar um remédio, ou ainda plantando em latas jogadas fora pela cidade plantas para ‘curar’ dor de barriga, ‘cheiro verde’ para temperar a vida, boldo para aliviar a ressaca ou mesmo a dor do fígado do vizinho. Simultaneamente, veríamos em bairros de luxo, em condomínios pessoas de olhares sem vida, freqüentando sessões de análise, veríamos assassinatos de filhos pelos pais e de pais pelos filhos: por dinheiro, por ciúme ou por mesquinharia na disputa pelo espólio de um morto que mal esfriou o corpo. Então nos perguntamos quem é nobre e quem é pobre?
Sou um paulista, saí de lá ainda menino, por não poder sobreviver em minha terra. Segui a família em sua sina de busca de lugares melhores e um dia tive que voltar à minha terra paulista. Lá uma família de nordestinos me ajudou a iniciar minha sobrevivência. Sim, uma família de nordestinos! Misturei meu sangue de paulista com sangue de nordestino e meus filhos (primeiro casamento) são herdeiros desta mistura, e tantos e tantos em São Paulo também o são. Além do mais, São Paulo foi construída pelas mãos de mineiros, nordestinos e de tantos paulistas que não fizeram parte da herança da riqueza produzida por seu venerado estado. Portanto, podemos dizer que São Paulo é fruto de tantas subjetividades que o fazem às vezes belo e aconchegante, e às vezes racista e hostil. Mas o que é mesmo São Paulo? Ele podemos dizer é fruto de pensamento pobre e pensamento nobre. Então voltamos ao começo: o que é nobre e o que é pobre? Será que ser pobre é ser esse povo belo que trabalha sem parar para construir a cidade grande e majestosa, e depois morar fora dela, na periferia da favela? Então, o que é ser nobre e ser pobre? Nobre seria nascer em berços de ouro e crescer sem assentar nenhum tijolo, e mesmo assim, ter tudo na mão fruto do suor dos pobres? Pobre seria assentar tijolo para si e para o outro e de troco não guardar rancor e construir suas alegrias, suas músicas, suas danças? E o que é ser nobre? É construir teatros que pobre não entra? É construir cinemas que pobre não entra? É construir conservatórios musicais onde pobre não aprende?
Então o que é ser pobre? É ficar fora do teatro e construir sua representação pelas avenidas carnavalescas e ser visto pelo mundo? É ficar barrado no conservatório musical e fazer sambas famosos e gostosos pela riqueza poética? É produzir músicos de ouvido como Pixinguinha, Cartola, Jamelão, Adoniran Barbosa e etc e etc e etcétera?
O que é ser nobre? É poder freqüentar escolas pagas e confortáveis e depois dizer que está pronto para resolver os problemas dos pobres? É ter papai e mamãe bancando os estudos para serem médicos, engenheiros, e depois estar ‘pronto’ para governar o povo? O que é ser nobre? É ter uma vida vazia por ser educado desde a mais tenra idade para vencer na vida? Para superar seu amiguinho? Para não brincar na rua com pobre? Ser nobre depois de formado é cheirar cocaína, fumar maconha, beber whisky, freqüentar sadomasoquismo, pagar para ser chibatado, pois precisa gozar um pouquinho? Ou ser nobre é agüentar uma família conservadora que o consumirá e o fará ser corrupto para que suas mulheres vazias possam gastar em lojas de luxo?
Então pergunto o que é ser pobre? É construir a teia de Penélope. É postergar o desejo incontido dos iluminados que querem salvá-los, ou dos liberais que lhe prometem o progresso e depois os deixam sós, tendo miséria física como excesso? Ser pobre é acertar as contas devagarzinho? É esperar a hora certa de ter seu lugar de pensar? É ter astúcia pra inventar a vida onde quase nada sobra para ele? É apesar da mesquinhez do que se quer nobre, o pobre ainda inventa música para o nobre cantar pra fugir do vazio que só ele sabe produzir para si? É apesar de nada ficar para ele, ainda ter a arte de inventar a dança pra ele e para dividir com o nobre que teve o teatro, mas não criou a dança, não criou a arte de vida? Ser pobre é não ter para ele conservatório, mas consegue assim mesmo fazer música para alegrar a vida da nobreza que freqüenta a escola, mas não tem musicalidade ligada á vida? Ser pobre é fazer a música que faz dançar a fremência da vida enquanto o nobre vai ouvir música para fugir de si mesmo? O que é ser pobre e o que é ser nobre? Nobre é rico e pobre é o que? Será que não está tudo invertido? Se deslocarmos o sentido de riqueza como tesouro do coração não estaríamos entendendo que o que é chamado de pobre não seria o que mais se aproximou do que falou o Mestre de que: “onde estiver teu tesouro lá estará seu coração”? Será que ser pobre não seria estar mais próximo do que o Mestre falou de que: “riqueza boa é aquela que quanto mais a dividimos mais ela se multiplica”? Então se entendermos riqueza pensando junto com Jesus o pobre é o rico e o rico é o pobre? Então o que é rico e o que é pobre? Hoje vemos uma minoria querendo produzir bastante riqueza e uma maioria querendo dividir pobreza. O país está dividido entre o que então? Entre rico pobre e pobre rico? E nós o que somos? Pobres ricos ou ricos pobres? Eis a questão das palavras. As mais inocentes são as mais perigosas. Palavras como disse Hölderlin, “as palavras são como parábolas, servem para fazer viver e servem para matar”. Portanto, usemos com cuidado as palavras. Então, como você se considera depois de tudo que polemizamos? Você quer empobrecer sua alma para ficar rico e viver num mundo de lágrimas, hipocrisia e violência ou quer enriquecer a vida e viver nesse oceano de sorrisos? Pois é! Nesta eleição está em disputa um menino de origem nobre e um menino de origem pobre. A escolha é sua. O Brasil está em suas mãos.
Escrito por oleotti às 19h05
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