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Prá que nome? Julio Cézar Coelho
Se pensar, hesito. E ao hesitar, sinto as incertezas me absorvendo, me desconectando, me (de) batendo nas muralhas concretas construtos pelos homens. Começos a sentir dor, vêem marcas em meu corpo tatuadas por palavras desferidas, ao longo das trajetórias percorridas. Insano, olho ao redor e pergunto “Onde eu estou”? Talvez minha insanidade não se atente à ou às minhas indagações, pois não ouço mais (quem sabe meus ouvidos não foram feridos...).
Estou perdendo os sentidos. Sentir? O que é sentir? Sabia sentar, ouvir, escrever, repetir. Falar? Falava sim, mas eram palavras que não saíam de mim e sim do SIM aprovado pelo outro. Tentei numa busca frenética e lisérgica, cruzar as fronteiras que me aprisionavam, que introjetavam e me faziam ser a voz e o espelho do algoz. Vi-me tendo que viver e ver uma face sem voz, um corpo mudo no mundo imundo... Corri, sei que corri, e, olhava para trás e via os algozes gritando suas palavras de ordem; só sabia correr, pois os fantasmas perseguidores não me causavam outra sensação a não ser dor.
E dessa dor, ah! De dor eles não entendem, pois não a sentem. O que é a dor? “É uma sensação que não deve ser sentida”, esta é a ordem, pois, “Só os fortes vencem”... E, dizem ainda “Querem saber a Verdade”? Olhem e leiam os livros... Eles contêm a verdade. Verdade? Foi quando, trêmulo, ao tentar balbuciar... consegui gritar “prefiro a minha insanidade”.
Foto:http://www.ensjo.net/joao/pensar-e-agir0.3.jpg
Escrito por oleotti às 14h26
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JANGADA DE PALAVRAS

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.Suplicamos expressamente:não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,pois em tempo de desordem sangrenta,de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,de humanidade desumanizada,nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar .Nada É Impossível De Mudar",Brecht
Como as pedras se arranjam e vivem juntas de forma separada, assim nós vamos escrevendo nossas formas de vivência. São juntando coisas, pertences velhos empoeirados da infância que se foi a partir da vida no semáforo na venda de chicletes. Foi ali que as coisas de menino se perderam. Juntar tudo isso com as coisas dos meus amigos de caminhada entre as pedras que nos sobraram do viver. As palavras sobem para os morros como um texto triste que violenta as formas construídas duramente pela angústia da aridez da sobra dos que reparte algo minguado, fruto da partilha de mínimos homens que nos detestam. Nesta subida sobem pessoas e coisas. Sobem em forma de um texto perverso. Ali já em cima torna vivência pela magia poética dos fazedores de tudo sobre poucas coisas. O texto vai cozendo o sentido fragilizado e atacado ininterruptamente pela mídia que faz sua instalação perversa de sentidos feitos por palavras mortais. Mas neste caldeirão de palavras vai se cozinhando a vida. Vai sendo tecido textos e mais textos que as máquinas desejantes vão tecendo linha a linha, ponto a ponto, se cruzando, roçando um fio no outro fio. Vai formando textos mais perversos ainda ao lado de textos que não desistem de suas formas meigas e belas, fazendo brotar a vida em fluxos. Dançando a dança da vida os textos vão se cruzando na voz do velho, do moço da criança. É o conselho da mãe preocupada, do padre comprometido, do velho escolado, mas também do jovem desarazoado, de seu sangue fervente e teimoso. Dele nasce à vontade da transgressão, da insubordinação a uma vida crua e triste. Quase inodora, sem fragor, sem paladar, sem beleza para o olhar e com ruídos que quase não vale a pena dar ouvido. A vida vai cozinhando no caldeirão do texto misturado. Os cinco sentidos se cumpliciam em sua relação com os sentidos construído em suas formas provisórias e nas suas pequenas áreas de manejo. Vai assim brotando a vida na dança da negra que teima em não perder sua sensualidade. Vai se dando em um fluxo que não se quis entendido numa taxonomia aristotélica que a tenta fixar em um lugar classificado e hierarquizado. A vida se dá por fluxos contínuos, os quais temos que significar com palavras que embelezam a vida. Diz Hölderlin, pensador alemão do início do século XIX, que a vida se dá por abundância e não por miséria. A miséria nasce na fonte das palavras mal fabricada: pelas mãos guiadas por pensamentos desencarnados das alturas. A cobiça, a mesquinhez, a ganância, a perversidade do espírito, faz de uma forma já mesquinha por si pela forma homogênea e transcendental que se opõe a tudo que é mundano: o corpo, a sensibilidade, a sensualidade, a erótica do corpo, enfim a tudo que nos faz gente, nos faz bicho. Se não bastasse essa forma de pensar nos educar para guardar nossos desejos para um amanhã que nunca chega transformando a vida em uma completa procrastinação, ainda vem os abutres que não se cansam de utilizar-se dos jargões produzidos por essa forma ilustrada de degenerar os sentidos das pessoas, a as fazem então em sua versão perversa ao extremo. Utilizam-se desses saberes pastorais para tirarem usufruto para alimentar suas sanhas de consumo insaciáveis produzidas por um corpo moldado na vida vazia e pobre que não sabe fazer um samba, um funk, uma modinha de viola. É meus amigos, o chamado de povo, que já foi chamado de demos, tem uma história rica, trágica e bela para lhes contar. Porém esta história também faz chorar por entender que a riqueza, a tragédia e a beleza são três coisas que fizeram e fazem parte do dia a dia desse povo, desse demo que tem uma história de um lugar sempre provisório de produzir seu saber sobre o nada oferecido. Devemos desentender para poder entender. Desentender supõe-se se livrar dessa parafernália filosófica que nos sufoca a dois mil ê quinhentos anos. Saiba que a vida no ocidente tem uma trajetória que pode nos ensinar que os saberes são produzidos em uma natureza que é uma grande oficina e não uma natureza que se quer das alturas que viria para regenera-la. Essa oposição entre o Bem e o Mal, foi à criação perversa que instituiu o mundo que hora se defronta com sua grande hora. Pois saibamos um pouco como podemos entender essa longa e penosa história do saber e das formas com que ela chega até nós. E descem para a cidade. O que é a cidade? É a paisagem para nossos olhos. Olhos de corpos que vivem mais perto do céu. Então as palavras e as pedras quando soltas se juntam numa grande orquestração e formam a textura do chão batido e a tessitura das palavras que fazem brotar a vida na aridez do chão que sobrou. Somos as subjetivades tentando se coadunar com as formas coletivas de existência. Somos o povo que se denomina de anônimos. Como que se fosse algo invisível aos olhos. Mas as palavras se resvalam uma nas outras e se contaminam. A vida vai se formando em outro estilo de viver como fruto de nosso texto. Nossa jangada de palavras vai sendo empurrada para nosso oceano.A vida está renascendo. Como diz Jurandir Freire Costa ao pensar junto com Foucault, ela está renascendo através da escrita do dia a dia. Uma escrita empoeirada, de chão batido, cheio de sorrisos de crianças que não cedem nunca às tentativas de faze-las serem tristes. Nossa jangada está sendo empurrada para o mar. Crianças, e adultos todos empurram essa jangada para oceano de uma existência que será parida cheia de contaminações de nosso viver. De nosso viver sob as marcas das botas da arrogância do saber que se quer superior.
Foto:www.unb.br/fau/pos_graduacao/cadernos_eletronicos/arte/fig5.jpg
Odemar Leotti é Mestre em História pela UNICAMP. Atualmente está lotado no Departamento de História da UFMT.
Escrito por oleotti às 00h21
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