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PLACEBO - Julio Cézar Coelho
"Disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso...”, ouço a música do Cazuza, são 00h43min de um início de madrugada semi-silenciosa. Esse semi me causa certo desconforto, pois não sei se ouço o silêncio ou espero o barulho, tão acostumado aos meus audíveis ouvidos. Testo os meus sentidos, “sou por acaso”, me sinto ao acaso e então estou ao acaso. Fico a esperar o telefone tocar... Ele emudeceu; nada... Nada me vem. Então volto o meu pensamento às esferas que me aprisionam, que torturam e não se satisfazem com a sua intrepidez nesse dado momento. Meu corpo traduz o que desejo. Meu desejo não se satisfaz com minha tradução. Procuro fórmulas pela janela aberta, e sinto o frescor me bater o rosto. Estou sentindo, eis meu reflexo racional. Se estou sentindo, então quero estar sentindo o que sinto. Mas... Sinto muito, ‘diz o meu pensamento’, pois neste exato instante, ouço o barulho de uma sirene, e fico a pensar o que teria acontecido com a pessoa ou pessoas que sofreram o acidente, e minha desvirtuação se desconecta do impulso criador. Estou fadado ao silêncio e com isso volto a emergir no âmago da (des) construção do que chamo de mim mesmo. O “sou por acaso” tenta ser forte, aquele que dispara contra o sol, que busca nas sôfregas relações, a alternativa de viver a realidade construída. Sou um prédio em ruínas, um desconforto para a modernidade, pois a estética não corresponde ao que está posto. Vejo na criação do Patrimônio Histórico, a salvação para a reconstrução ou mesmo, a restauração de mim mesmo, me constituindo uma parte do patrimônio, que se desfez através do tempo, seja este qual for, pois há tantos tempos... E este pára ou não pára?! Fico a indagar. Fico a ruminar as palavras, como diz meu amigo historiador, as palavras que ainda não estão palavras. Estas são as mais sofríveis. O que realmente eu quero com elas? Que frases elas devem constituir para traduzir o que eu sinto ou quem eu sou, ou não. Quero as frases prontas para que o diagnóstico seja colocado imediatamente? Prefiro o não. Não sei se estas palavras que se tornam frases, que se tornam textos, que se tornam teorias, que se tornam as verdades, são palavras que dizem quem eu sou. Quero sim, sentir o perfume e o frescor desta noite que me abraça e encanta com o brilho inebriante da lua que aponta na ponta da ponta do prédio á minha frente. Começo a me sentir novamente, meus dedos disparam rajadas nas teclas da ferramenta tecnológica, minha companheira, aliás, minha doce companheira, que traduz em verbo, o placebo de sentimentos em mim introjetados.
Escrito por oleotti às 23h26
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