ODEMAREAMIGOS
  Tempo criança, não sem tempo - Odemar Leotti

      

Gostaria de recuperar o tempo de infância para entender o quanto vivi. Vivi mais tempo do que vivo nos meus tempos adultos. Cada segundo foram de uma intensidade sem igual. Por mais que tivesse sido excluído da distribuição de brinquedos soube criar minhas ferramentas de fantasia. Cada pedaço de pau, de madeira, de lata em poucos segundos transformavam-se em brinquedos, ou melhor, transformavam em objetos de um eu adulto: a imitação do adulto se dava com o que dispunha essa criança expropriada. Uma lata de sardinha virava uma carroceria de caminhão, um carretel virava rodinha, tábuas viravam pontes, chassis de caminhões. O tempo foi passando e o espaço da casa tornou-se pequeno e conseqüentemente fui explorando novos espaços e novos amigos. Os brinquedos tornaram-se mais ousados, mais encorpados: estilingues, caminhões fortes com feche de molas, com rolamentos no lugar de rodas, lambretinhas de três depois de duas rodas. Vieram os “corguinhos”, as turmas, as guerras de meninos. Veio o campinho e o primeiro jogo de camisa: a do Vasco da Gama. Veio a bala e aí... Perdida, achou-me, teve finalidade que justificasse o valor da ação na bolsa. Garantiu empregos, como tudo vira isso. Fez tudo isso se perder para sempre. A criança virou um canto de notícia no jornal. E atenção para a próxima notícia...

Foto: http://www.juntaex.es/consejerias/bs/varios/images/infancia.gif

 



Escrito por oleotti às 00h20
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  PIRATA VIDA - Odemar Leotti

Mando-te um disco pirata... Um pirateado manda um pirata... Corsários do mar, piratas da rainha. Serviçais dos reis, guardas dos portais. Eis aqui perante vós, além do espaço além dos tempos. Pois resistem ao tempo, travestem-se, transformam-se tais como ilusionistas do tempo e do espaço, impelem-se contra nossos corações, confortando-os como se realmente os amassem. Mera ilusão, dilaceramento. Como hienas de carnes sobrepujadas por feras maiores, rasgam nossos despojos, arrastam nossas dilaceradas carnes pela poeira de uma terra violentada. Eis - me aqui senhor dos tempos, deus do altar das verdades. Salvem os propositores do saber das badaladas do nosso coração. Cá estamos piratas, flagelados, capengas, caolhos, mas caminhando por estradas não construídas por nós, pelas quais esfolamos nossas mãos e joelhos para conseguir garantir o direito de caminhar. Cá estamos, nos todos piratas. Vida pirata: criança pirata, filho de uma mãe pirata, que leva uma vida pirata, cronometrada por um relógio pirata, com sua roupa de marca pirata, com um baton pirata, com uma comida pirata, com um sentimento pirata, corsários do mar da rainha, não mais o mar de Deus. Caminhamos nós os piratas, ouvindo nossos discos piratas, ouvindo nossos pais de santo, nossos curandeiros, nossas rezadeiras, nossas benzedeiras, todos piratas. Piratas que curam crianças piratas, mulheres piratas, velhos piratas, que as pagam vendendo salgadinhos com condimentos piratas que recebem passes de ônibus, serviçal com dinheiro pirata. Depois de tudo que um dia pirata me transtorna, vou ao bar beber em uma cristal renegada pelo corrupto por ser pirata, e aí bebo um cálice pirata que vai entranhar meu fígado pirateado por invasões mil de comidas e bebidas piratas, carregadas de agrotóxicos, agro donos, agro-canalhas, agro-assasinos,  edulcorados por propaganda que transforma vilão em rei, esse publicitário que seqüestrado vai embora do Brasil, e empacota vários pares de sapato, comprado com dinheiro que ganhou nos ensinando comprar gato por lebre. Pirata que mata a torto e direita e esquerda porque não puderam ter a oportunidade de entender por que um ministro economista não resolveu seu problema de saúde. Pausa para beber uma cerveja que não é pirata. Estou refeito do ódio, mas não refeito da indignação de ver olhares tontos, tristes passando em seus caminhares incomodando com seus cheiros os olhares de almas dos que também não tiveram chance de escolher um caminho próprio. Filhos de ricos que um dia também foram crianças, e que não são maus e sim produtos de uma racionalidade que os fizeram piratas do rei, corsários da rainha. Não devemos odiá-los. Devemos combatê-los como tais nos combatem. Que desconexo que virou a vida, que paradoxo, trocar o saber que pagamos para ter e não temos e quando temos é com desprezo, com desdém. Ouvir a felicidade de alguém que pagou o médico qualificado pela verdade que foi-nos negado, e que buscamos em nossos saberes longínquos e hoje tidos como pirata. Buscar as raízes hoje piratas, raízes de pau, da memória dos fragmentos que nos negam e que teimamos em manter. Mantidas sob uma saraivada de balas dos que desprezam saberes que alem do seu tempo, vivendo sob clandestinidade classificado na desrazão, ainda teima arrastando entre balas e salvando os seus. Clamamos ao oráculo de Delfos, conclamamos ás mães de santo, aos curandeiros, aos xamãs, aos conselheiros, às guardiãs das memórias: vigília eterna.

 

Foto: www.xtec.es/trobada/carnaval03/imatges/pirata.gif



Escrito por oleotti às 22h31
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“Cara Metade”

 

Sou apenas metade...

Metade alegria...

Metade dos sonhos...

Metade das ilusões...

Metade do intelecto...

da amizade,

do frio no estômago,

das lagrimas,

do amor...

Simplesmente metade...

Metades se completam!

Onde?

Onde estou?

Onde ela esta?

Sou metade da dúvida...

 

(Cristiane Araújo Costa)

 

Foto:www.ac.gov.br/outraspalavras/outras_8/metade.jpg

 



Escrito por oleotti às 21h50
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  LOLA FOI EMBORA - ODEMAR LEOTTI

Lola sentia-se ela, e não ela. Sentia-se aquecida e tremia de pavor. Ansiedade e repulsa. Vontade de ir e medo de ficar. Medo de ir e vontade de ficar. Vontade de não ficar e medo de não ir. Eis Lola. Parava para pensar direito, por a idéia em dia. Todos os dias ela passava beirando o pecado. Queria, mas não ia, mas quando não ia, acabava indo. Algo a arrastava para frente e para traz. Entre um larga de ser boba, e um toma cuidado. Nesse domínio do ser é que Lola tocava sua vida. Um marido ausente e presente. Mais do que nunca presente. Um marido impessoal rondava sua morada. Essa morada parecia ser sua... Parecia. Mas sua morada era rondada por multiplicidades que dobravam um texto sobre outro texto e ela tinha que se entender com essa parafernália de vozes cruzando com vozes. As que formavam o labirinto-marido, as que formavam o devir-arvore, e sua fábrica de fidelidade às palavras, e as infidelidades do corpo. Lola por mais que queria esquecer daquela sensação estranha que tomava seu corpo sentia-se traída por suas mãos alisando a sedosidade do vestido planando as suas curvas e quando dava por si, quando escapava desse silêncio via-se atacada por uma matilha de lobos que devoravam seu cérebro e os mastigavam babando frente ao olhar estupefato e pasmo de um corpo estraçalhado por um turbilhão de palavras que entre vai e fica tornava a ela um terceiro espaço. Lola cantarolava uma canção inaudível. Nem ela sabia porque cantava, mas sentia a necessidade de cantar. Corria para o quintal, precisava ver gentes, precisava ouvir vozes que a tirasse daquelas paredes cruéis que ela aceitou e não quis. Parece que fugia de um carnaval de monstros que a atormentava e fazia com que dificultasse a espera e a manutenção dos conflitos da carne. Por mais que queria estar habitada no silêncio, suas paredes tornavam como que nada perante o bloco de figuras difusas que invadia seu casulo tão fragilizado. Dialetos, patoás, gírias todos constituíam esse pesadelo, e a fazia como um ente. Nada disso se via em seu rosto, da pele pra dentro, da pele pra fora, tudo estava encoberto por um sorriso curto, ou largo. Mas nunca deixava frestas para o olhar desavisado. Não gostava de dar o braço a torcer. Construía uma linguagem de face para persuadir os olhares a vê-la como uma mulher normal. Como que querendo contrapor uma multiplicidade de invocações que teimavam roubar seu elo com um centro, e a molestavam, ela constituía uma língua como que para se fechar aos dizeres, fechar sobre si mesma e alimentar-se no espaço funcional de sua impotência perante o não realizável e não dizível. Se inexistia para ela algo que a firmasse em seus desejos secretos inexistia para ela também, viver às claras com as pseudo-existências que tinha que aceitar. Não era nunca ela que decidia. Jurava de noite, e chorava de dia. Era esse caos-sentimento esse devir entreaberto a uma dualidade que se apossava de sua vida. Lola então ia embora e voltava. Voltava com vontade de ir rapidamente, mas precisava ficar eles assim queriam. Ia com medo, mais ia. Nesse espaço estratificado em que se demarcavam os lugares de cada um tornara-se um espaço quase impossível de se transitar seus sentimentos, e poder ainda adoçar seus sonhos com um pouco de fantasia. Sonhava com as férias, com aquele passeio de fim de ano. Fugia para o passado, e lembrava como era bom seu namoro. Seu corpo parece que se tornava desaparecido durante essa viajem estelar. Nem via o que se passava por perto, mal percebia o olhar do seu vira-lata guardião e companheiro na dor. Também preso a uma corrente sentia um devir-esperança da elasticidade daquela corrente. Lola aos poucos voltava a si e lembrava do pequeno espaço de manejo em que vivia confinada. Espaço esquadrinhado, extensão dos dizeres com seus constructos e construtores conselheiros emiurgos. Ali nessa área configurada ela estendia seus desejos e levantava seus castelos. Um belo dia amanheceu desvanecida de imaginações, sem mais nada a inventar. Era uma sensação de amargura, depressão e angústia. Nesse dia ninguém mais pode ver aquela mulher que espera sempre um homem que um dia viria para vê-la. Parecia que as coisas não mais iam se suceder. Sua ponta de esperança se esvanecia. A tarde caia, e era nesta hora que mais amarga tornava sua solidão. Lola foi embora.

Foto:www.ideiasemdesalinho.blogs.sapo.pt/.../2004_12.html

 

 



Escrito por oleotti às 00h04
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  POR QUAL RAZÃO...

Ao chegar na colisão de meu pensamento...por que não dizer pensamentos, me deparo com canhões e artilharias, armas de fogo, castelos soberanos de poder, sinais de controle, símbolos significantes que são depositados como gotas homeopáticas em minha existência. Corro os olhos e vejo sombras, talvez sejam corpos, ou quem sabe os dois, pois assim podem se mover e perpassar a todo o momento, pelos caminhos que desejamos caminhar. Ouço vozes, ressonâncias pelos cantos, procuro ver os cantos, mas, os cantos são escolhidos e recolhidos, para que os confábulos não sejam audíveis. Não... Meu pensar não escolheu as cores de Almodóvar, a sinfonia de Bethovenn, a loucura de Rimbaud ou os gritos de Jean Genet na prisão em Paris... Meu pensar se deu por gostar, e esse se fez Eu. Meu depósito não é alimentado por Gramsci ou Marx. E se eu preferir o cheiro, o gosto, o tato, o olhar, a viagem e o toque daquilo (ou daquele) que realmente gosto e me alimenta. Não quero saber se a cartilha de um “stalinista” reza o conceito e o pré-conceito de que um sujeito não possa gostar de outro sujeito. E não são só estes os miseráveis. O muro de Berlim caiu. Que caiam as Igrejas. Que caiam os muros das academias. Que respirem e olhem para o ballet das andorinhas, em suas sinuosas apresentações aos vis mortais. E volto, e vejo as idéias de gerações de intelectuais, ditos porta-vozes das Luzes deste “mundo obscuro”, necessitado de seus conceitos e ditames, ditando e citando as regras deste poder instalado e instaurado num contínuo e hereditário jogo de disputas... de egos, de cegos, de pregos...Assim, me vejo em uma estrada, onde procuro caminhar ou, simplesmente, passar, sem que necessite que “As Cartas a Kuggelman” ou, as regras de como ser o reprodutor das falas e escritas, perpetuadas em corpos servis, sejam o meu significado. Não sou a festa, sou a fresta. Não sou Eu se for à imagem que o outro queira. Eu viajo na minha senilidade, para que esta sustente minhas veias e vértebras, até o entardecer do cerrado... Não sou o falo... Nem falo...

Foto:www.louco1980.tripod.com/desespero.jpg

Autor: Julio Cézar Coelho

 

 



Escrito por oleotti às 23h29
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  HUMANA SAGA - Uirá Escobar Aliotti

Nasceu um dia um homem, com origem indefinida, em condições ideais de temperatura e pressão. Cresceu animal, inventou a linguagem, e depois a opressão. Nunca esteve solitário, se reproduziu, se relacionou, guerreou, matou. Viveu da caça, da pesca, da coleta, do cultivo, da cultura, do vapor, até do amor. Inventou a máquina, inventou um deus. Chorou tantas mortes, comemorou tantas outras. Constituiu uma família, uma tal célula mãe de uma tal sociedade. Um homem um dia comprou, vendeu, roubou, doou, achou, esbulhou, usou, abusou de algo que chamou de propriedade. Consumiu o canto de uma sereia. Vendeu a própria roupa, a própria mãe, a própria alma. Perdeu a paz, a luz, a calma. Destruiu rios, matas, bichos, povos, etnias, valores e muros. Construiu templos, grades, leis, jaulas, estádios, monumentos e muralhas. Sempre foi um grande homem, às vezes não. Ele lutou, jogou, amou, odiou. Mas um homem também meditou, jejuou e esperou. Cantou o cântico dos cânticos, leu o livro dos livros, adorou o mestre dos mestres, tropeçou na pedra filosofal. Um homem saiu da caverna, se equilibrou em duas pernas, edificou lares, hospícios e tabernas. Mas o mito não estava na caverna, a sombra é a essência! Um simples homem, deveras complexo. Muitas vezes foi herói, tantas outras um louco. A diferença? Indizível. Um homem cruzou o planeta, conquistou muitos povos, saiu em busca de outros, no espaço. Não foi capaz de admirar-se com a sua própria humanidade. Um homem e suas companhias, internet e celular. Afeto digital. Um homem do futuro. Futuro incerto, extermínio étnico, hecatombe nuclear, suicídio em massa, a televisão e a desgraça. Tudo em tempo real. Um dia um homem, e seus valores, passou pelos outros e nem olhou. Estava repleto de si, apesar de não saber quem era, de onde veio e para onde ia. Um mega investidor, advogado renomado, líder político habilidoso, intelectual respeitado, religioso fiel, pai exemplar. Naquela manhã, como em várias outras, porém pela última vez, um homem se dirigiu ao interior de seu frio escritório. Estafado, porém muito ativo, subiu ao oitavo andar. Desejou um bom dia vazio e genérico a quem, sabe-se lá quem, por força do destino cruzou seu caminho naquela manhã. Em sua sala, atacado por forte labirintite atirou-se pela janela. E ao cair seu corpo se...

Autor: Uirá Escobar Aliotti, formado em Direito pela Unemat-Universidade Estadual de Mato Grosso. Atua como advogado em Cuiabá. Caracteriza-se por sua luta por um país que não exista o triste contraste entre a opulência e a miséria.

Foto:www.oblogdorapaz.blogs.sapo.pt/arquivo/omedo.jpg



Escrito por oleotti às 21h34
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  A LAMA NOSSA DE CADA DIA - Paulo da Vida Athos

Se em razão das mortes de nossas crianças a população saísse às ruas, nua de roupas e de medos, fazendo com que governantes e legisladores buscassem abrigo e tentassem se proteger de uma sociedade insurreta, eu entenderia como um ato de lucidez que deveria ser compreendido e acatado de forma imediata.

Loucura para mim é a insanidade social que se traduz em omissão; é o oportunismo de nossa mídia covarde que apenas divulga essas mortes para vender seu peixe, dando mais espaço para os dossiês escroques do que para cobrar um basta a esse morticínio injusto e tão injustificável quanto nosso silêncio conivente e covarde.

Karine dos Santos Silva, uma menina de 12 anos, está internada desde ontem, 20/10/2006, no Hospital Carlos Chagas, por ter sido atingida por uma bala de fuzil que atravessou seu lado direito e saiu em suas costas. Karine, que levava ao colo a prima de um ano, caiu na Rua da Lama na Favela de Acari por volta das 12h54m dessa sexta-feira.
Mas ela não caiu na Rua da Lama sozinha. Caiu porque sempre esteve sozinha. Caiu e levou todos nós. Sim, senhoras e senhores, somos partícipes dessa barbárie sem fim e estamos com lama na cara.

Uma sociedade mais séria já teria colocado um fim nessa prática criminosa de invasões em nossos guetos por nossa despreparada polícia - que ainda não se libertou do bafio de fera com que se impregnou durante as práticas aprendidas em nossos governos antidemocráticos.
Levar fuzis e carros blindados - os Caveirões - para invadir nossos guetos é que é insanidade. Não importa de onde saiu a bala. Importa tão pouco, aliás, que a autoridade policial da 39.ª DP afirmou que "- Não teve perícia porque não pedi". Certo, doutor, perícia para quê? Todo mundo é culpado: traficantes, policiais, todos nós no mesmo saco.
Se a polícia não age com inteligência - e falo aqui no termo técnico - evidentemente que essas mortes continuarão a acontecer. É preciso que se use estratégia, inteligência, a mesma que colocou os mais famosos traficantes do Rio de Janeiro nas prisões: sem tiros e muitas dessas prisões fora dos limites do Estado e, em uma ou outra ocasião, até fora das fronteiras brasileiras (quando se criou até um incidente diplomático).
Segurança Pública no Rio de Janeiro é ficção. Essa foi a sexta criança vitimada desde setembro. Onde não há garantia não há direitos e onde não há direitos garantidos grassa a violência e a impunidade. Mas se há esse desgoverno na polícia fluminense, é em razão do desgoverno em que sempre vivemos.

Excetuando-se o período governado por Leonel Brizola quando tais práticas eram proibidas (o que não se podia fazer na transparência da Avenida Vieira Souto, não era permitido nos sombrios desvãos das favelas - e por isso foi tão criticado à época), essas mortes prematuras de nossas crianças e de inocentes são freqüentadoras de todos os outros governos.

A naturalidade com que a sociedade está tratando essas mortes dá asco. O que me enoja é ter a certeza de que se tais mortes estivessem acontecendo na da zona sul do Rio (o que não desejo em nenhuma hipótese vez que crianças para mim são isso tudo mesmo: crianças), logo logo teríamos a classe média nas ruas tangendo movimentos sociais, e a mídia, sem pudor e prevendo seus lucros, expelindo seu fel contra essa política de cadáveres que foi estabelecida.

Certamente que enquanto as "invasões" continuarem as mortes continuarão. E é justamente isso que tem que ser mudado.

A política irresponsável de invasão deve ser substituída imediatamente por uma política de ocupação pelo Estado. Ocupação com saúde, escola, saneamento básico e, claro, segurança. O mínimo que do estado se espera é que ele não seja o assassino, que ele não seja o bandido, e é justamente esse o papel que assumiu em nossas favelas.
Ou alguém acha que um homem que invade uma casa, arranca, seminus, da cama, o pai e a mãe de uma criança, no meio da madrugada, revira seus móveis e gavetas, esculhamba tudo e ainda xinga seus pais, trabalhadores, depois vai embora sem nem ao menos pedir desculpas, é olhado como o que por aquela criança? Para piorar no outro dia o traficante passa, lamenta o que policiais fizeram naquela casa, de tardinha troca tiros com aqueles caras que ridicularizaram a vida do moleque, e coisa e tal, sem sectarismo, respondam:-para a criança: quem é o bandido?  Provavelmente um ou outro imbecil de plantão vá-me "ofender" com o bordão de "defensor dos direitos humanos" e intitulando-se a si próprio de "defensor dos humanos direitos", nesse jogo de palavras tão sem propósito quanto revelador de ignorância. Defender os direitos humanos é defender o Estado Democrático de Direito, sem o qual não há democracia. Bem, claro que há os saudosistas. Mas esses podem ir de pronto, com a licença daqueles que me lêem, à merda. Não sinto saudades de ditadura. Muito menos sinto em meu rosto os respingos de lama da Rua da Lama, em que tombou Karine...

Fonte: http://paulodavida.blogspot.com/

 

Foto:www.nebardi.wordpress.com/files/2006/02/Bastajpeg.jpg

 



Escrito por oleotti às 21h42
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  Carrapato não é Chato - Odemar Leotti

Fétido igual a vinho, aromático igual a carrapato. Quero sentir o odor dos pés que amassaram o vinho para aplacar o verme que constrói a arrogância do nada que corrompe minha fonte de sentimentos. Quero isto para poder separar a febril ilusão de poder beber um cálice de vinho e arrotar erudição depois de fumar o meu cachimbo como se fosse a afirmação de um saber superior porque totalizante. Lareira, vinho, cachimbo e erudição. Prazer perseguido que termina em tragédia do vazio dos que querem se distanciar do suor do cotidiano. Boteco da esquina que rola o que não rola na casa que abriga o lar cristão. Boteco que não alisa, mas destrói tudo que se quer certo e erudito. É o dito pelo dito. É o vai embora com raiva por falta de adjetivos para a saideira. Carrapato maldito que nos prega no bar e nos expulsa do lar. Lar sem lareira, sem cachimbo, sem erudição. É cara na cara. É tudo se resolvendo na porrada. Na porrada do dia a dia. É porrada na cara quando se ouve que se tem que ir curtir uma vaga na fila do SUS. É o lar sem lareira, sem cachimbo e sem erudição. É o saber que se produz com murro no fígado. Com cuspida de escarro sem escarradeira. É o lar onde se pula moleque dormindo no chão em uma reles esteira. Sem lareira, sem vinho e sem erudição. É carrapato que nos liga na vida mesmo que não queira. É o lugar do saque a arma, mais rápido. É o dormir com tiro raspando a orelha. É o saber pra usar daqui a pouco. É saber que não tem mulheres de pernas cruzadas, olhares sensuais, faceiros... É mulher balançando criança “cagando até as tripas”. É mulher reclamando do vizinho e o senhorio ameaçando com despejo. É sem lareira, sem vinho e sem erudição. É o lugar onde não se tem direito de determinar a vida, mas tem que aprender a viver do que lhe sobra no deserto da mesquinhez de homens da cidade. Eles que sacrificam milhares de crianças e velhos só pra beber um bom vinho e arrotar arrogância baforando um cachimbo e dizendo que tem a receita certa pra salvar a humanidade. É um saber carrapato que já nasce impregnado na alma e no corpo. É o suor que não sai porque não tem água na torneira. É o sonhar e o baforar do cigarro pirata e o pensar o que comer amanhã. É meu nego. É chato e não é carrapato. É um chato de um saber que se fabrica no tapete de veludo que entende a vida como algo a se chegar e nem ver que nem a ela a maioria consegue chegar. É nesse lugar que conhecimento é apenas recozido e fica pronto para usar logo. É pegar o que está colocado pra gente e misturar uma pimentinha pra poder viver do que sobrou. É beber uma pinga e pensar que resposta dar ao senhorio intolerante. É minha gente. Essas pessoas pensam. Pensam como carrapatos e não saem do seu saco apesar de parecerem cabisbaixos. É carrapato que não querem mais você erudito do cachimbo e do vinho na lareira. Eles já acham vocês chatos. Eles: os carrapatos. Eles já mandam na parada. Não quer papo furado a vida inteira. É o povo, oxente bichim! Ta votando contra o sabidinho. São os carrapatos que não largam mais os chatos. É LULA DE NOVO COM A FORÇA DO POVO.

 Foto:www.saudeanimal.com.br/imagens/carrapato.gif



Escrito por oleotti às 22h28
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  METAMORFOSE - JULIO CÉZAR COELHO

Sinto náuseas, são gritantes...
Meu corpo colabora, minha cabeça padece
Penso que apodrece, que míngua a cada
Instante – e são tantos...
Que variam de cor, formando furúnculos,
Dos algozes que feriram
De gargantas que secaram
De suores sem desejos.
Misturas colaboradoras do desprezo
Dos que visitam os vermes insanos
Querendo seus tronos nos Feudos
Estabelecidos em seus planos
Deixando para trás os sujeitos
Que fizeram deste recanto
Um acalanto... Um encanto
E minha náusea vira pranto.

Foto:www.desejsoedelirios.blogs.sapo.pt

 



Escrito por oleotti às 00h27
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  GRAVANHAS Ou Espíritos sujos de chão - Odemar Leotti

Poética é um lugar indizível, indivisível, indiviso: lugar da poesia, da criação provisória e sempre provisória numa luta infinda, como um fluir constante de existências insondáveis. Lugar não-lugar, ainda e sempre um não-ser sendo do lugar. Lugar como centelhas de não-lugares, centelhas que faíscam como no tilintar das espadas. Espadas que não voam, não faz vibrar suas lâminas de aço a não ser pela vontade guerreira de seu empunhador. Faíscas, eis a poesia, lugar do perigo, do saltar para pensar no ar. Esse lugar onde a vida é forma de exercício de um poder incontido e incomensurável. Somos esses exercícios feitos de toque nas palavras assenhoreadas, de palavras apropriadas peã nossa estética de recepção, que fazem nascer e desaparecer sentidos, num fluir constante e ininterrupto. Faíscas, eis a poesia se pondo em abundância pela vazão aos jorros da vida como fluxos impulsionadores. Faiscando a alimentando o fogo da paixão, esse lugar perigoso que nos espreita e que só nele é que se exerce a vida. Somos frutos destes ocasos, e ocasos criamos para fugir do perigo da estagnação do ser. Fugir sempre do terror da indigência do ser, eis nosso destino. Pegar o fardo e ir. Eis o nosso destino! A vida é esse fardo constante de inventar um invólucro onde possamos armar nosso ninho. Onde possamos nadar na vida. É nessas águas que se formam as tribos, os grupos, os mais pequenos e as imensidões dos grupos. É nessa água que nadamos, na nossa língua, na linguagem que criamos para nela construirmos, de forma ingênua, nossa morada na vida. Deixar as palavras na dança dos espíritos que nos religam ao chão que pisamos, deixai esses espíritos tocarem as palavras, se apoderarem das coisas e fazer mundo. Sentimos nessa hora do perigo do salto, do jogo, como um timoneiro assustado entre o medo das tormentas e a vontade de nelas se lançar. Olhos estupefatos, tremor no coração: memória silenciosamente guardadas; de/coração. Como dizia o poeta: o que vai ficando para traz volta pela recordação, como um voltar pelo coração, num buscar de partes do mosaico da alma de nosso viver. Mimeses-elos, mimeses como líquido vaginal que se mistura com o sémem do homem, num sacolejar delirante da efetivação de uma dança da vida. Uma dança de semens e de óvulos. Células dando sim a vida, sabendo do enfrentamento da moral racionalizante que tenta criar no ser o empuxo para encarcerar seu fruto: o ser vivente. Conter o impulso, distribuir o prazer numa esteira de controle para somente procriação. Como lembrando de Clarice Lispector, a vida começa com um sim: uma célula diz sim a outra célula. Eis a vida! Depois se instaura uma moral e diz não a tudo que seja o impulso do desejo. Eis o fim! Eis a mumificação da vida... Dizer sim à vida é lutar para que ela não se petrifique. Deixar células em funcionamento para que a vida se dê como no tilintar das espadas da vida dos seus guerreiros. Ser bom não é ser manso de coração, ser bom é ser guerreiro. Só os guerreiros é que acendem as chamas dos corações de suas amadas.

            Palavras: tudo começa com essas palavras. Assenhoreadas pelos espíritos enxertam as coisas num sacolejar constante. É o fluxo Holderliniano de uma vida que se dá pela abundância. Semens e ovários, sexualiza a ação, quebram palavras, junta-se signos, suja-se de chão. Ah, agora sim! A poesia enfim como um espírito sujo de chão, como afirma o poeta Manoel de Barros, como “Gravanhas”, como o rio do menino pantaneiro, que na poética do espírito e chão, chorou em poética se incorporando no seu ser menino quando viu invadido seu ser pela palavra da ciência que fez seu rio deixar de ser uma cobra de vidro para virar uma enseada. Para sua tristeza aquela “cartilha científica”, matou sua “cobra de vidro” ao obrigá-lo a decorar para provar que ela era na “verdade”, uma enseada. Nunca mais viu sua “cobra de vidro”: ela foi (dês) poetizada pelo saber verdadeiro sobre as coisas, sobre o lugar que o fazia nadar o dia inteiro. Nunca mais viu a sua “cobra de vidro”. O fantasma do professor passou a habitar aquela imensidão das águas. A ciência parecia querer tirar a criança sua “perdição” entre ela e a natureza, queria tirar e foi lhe matando por pedaços, roubando-lhes o encanto. A ciência, como afirma o poeta, pode descobrir as verdades sobre as coisas, nunca poderá descobrir, nem se deliciar com seus encantos.

            Portanto, as palavras e espíritos se formam na tríade do santo que se enlameia para se formar. Céu e terra em completa perdição. Chão e clarão a erguer-se com os olhos estufados do menino como o nadador que sai com os olhos vermelhos estufados depois de um longo mergulho nas profundezas das superfícies através da embriagues mundana. Relembrando Barros: GRAVANHAS!

Foto:www.escaner.cl/escaner16/lector16a.jpg



Escrito por oleotti às 10h26
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  O NOBRE E O POBRE - Odemar Leotti

O que é o ato de nascer a não ser tomar posse de um mundo infindo e belo. Porém quando nascemos não escolhemos o lugar desse ato e nem mesmo a forma de nos apossarmos deste mundo. Nascemos em um mundo já pronto e criado à medida dos homens. Tanto faz, um como outro homem nasce cada qual no lugar a ele reservado. Uns nascem na fartura material e por ironia do destino vive na miséria artística que faz com que sua vida seja abundante de comida, de roupa, de conforto. Porém sabemos de tantas notícias do paradoxo que não se quer falar. O paradoxo é que em dado momento da vida se pudéssemos radiografar os sentimentos de cada um veríamos alguém sorrindo em um barraco de favela, ou mesmo doando ao vizinho um copo de arroz, café ou dividindo o dinheirinho para o outro comprar um remédio, ou ainda plantando em latas jogadas fora pela cidade plantas para ‘curar’ dor de barriga, ‘cheiro verde’ para temperar a vida, boldo para aliviar a ressaca ou mesmo a dor do fígado do vizinho. Simultaneamente, veríamos em bairros de luxo, em condomínios pessoas de olhares sem vida, freqüentando sessões de análise, veríamos assassinatos de filhos pelos pais e de pais pelos filhos: por dinheiro, por ciúme ou por mesquinharia na disputa pelo espólio de um morto que mal esfriou o corpo. Então nos perguntamos quem é nobre e quem é pobre?

 

Sou um paulista, saí de lá ainda menino, por não poder sobreviver em minha terra. Segui a família em sua sina de busca de lugares melhores e um dia tive que voltar à minha terra paulista. Lá uma família de nordestinos me ajudou a iniciar minha sobrevivência. Sim, uma família de nordestinos! Misturei meu sangue de paulista com sangue de nordestino e meus filhos (primeiro casamento) são herdeiros desta mistura, e tantos e tantos em São Paulo também o são. Além do mais, São Paulo foi construída pelas mãos de mineiros, nordestinos e de tantos paulistas que não fizeram parte da herança da riqueza produzida por seu venerado estado. Portanto, podemos dizer que São Paulo é fruto de tantas subjetividades que o fazem às vezes belo e aconchegante, e às vezes racista e hostil. Mas o que é mesmo São Paulo? Ele podemos dizer é fruto de pensamento pobre e pensamento nobre. Então voltamos ao começo: o que é nobre e o que é pobre? Será que ser pobre é ser esse povo belo que trabalha sem parar para construir a cidade grande e majestosa, e depois morar fora dela, na periferia da favela? Então, o que é ser nobre e ser pobre? Nobre seria nascer em berços de ouro e crescer sem assentar nenhum tijolo, e mesmo assim, ter tudo na mão fruto do suor dos pobres? Pobre seria assentar tijolo para si e para o outro e de troco não guardar rancor e construir suas alegrias, suas músicas, suas danças? E o que é ser nobre? É construir teatros que pobre não entra? É construir cinemas que pobre não entra? É construir conservatórios musicais onde pobre não aprende?

Então o que é ser pobre? É ficar fora do teatro e construir sua representação pelas avenidas carnavalescas e ser visto pelo mundo? É ficar barrado no conservatório musical e fazer sambas famosos e gostosos pela riqueza poética? É produzir músicos de ouvido como Pixinguinha, Cartola, Jamelão, Adoniran Barbosa e etc e etc e etcétera?

 

O que é ser nobre? É poder freqüentar escolas pagas e confortáveis e depois dizer que está pronto para resolver os problemas dos pobres? É ter papai e mamãe bancando os estudos para serem médicos, engenheiros, e depois estar ‘pronto’ para governar o povo? O que é ser nobre? É ter uma vida vazia por ser educado desde a mais tenra idade para vencer na vida? Para superar seu amiguinho? Para não brincar na rua com pobre? Ser nobre depois de formado é cheirar cocaína, fumar maconha, beber whisky, freqüentar sadomasoquismo, pagar para ser chibatado, pois precisa gozar um pouquinho? Ou ser nobre é agüentar uma família conservadora que o consumirá e o fará ser corrupto para que suas mulheres vazias possam gastar em lojas de luxo?

 

Então pergunto o que é ser pobre? É construir a teia de Penélope. É postergar o desejo incontido dos iluminados que querem salvá-los, ou dos liberais que lhe prometem o progresso e depois os deixam sós, tendo miséria física como excesso? Ser pobre é acertar as contas devagarzinho? É esperar a hora certa de ter seu lugar de pensar? É ter astúcia pra inventar a vida onde quase nada sobra para ele? É apesar da mesquinhez do que se quer nobre, o pobre ainda inventa música para o nobre cantar pra fugir do vazio que só ele sabe produzir para si? É apesar de nada ficar para ele, ainda ter a arte de inventar a dança pra ele e para dividir com o nobre que teve o teatro, mas não criou a dança, não criou a arte de vida? Ser pobre é não ter para ele conservatório, mas consegue assim mesmo fazer música para alegrar a vida da nobreza que freqüenta a escola, mas não tem musicalidade ligada á vida? Ser pobre é fazer a música que faz dançar a fremência da vida enquanto o nobre vai ouvir música para fugir de si mesmo? O que é ser pobre e o que é ser nobre? Nobre é rico e pobre é o que? Será que não está tudo invertido? Se deslocarmos o sentido de riqueza como tesouro do coração não estaríamos entendendo que o que é chamado de pobre não seria o que mais se aproximou do que falou o Mestre de que: “onde estiver teu tesouro lá estará seu coração”? Será que ser pobre não seria estar mais próximo do que o Mestre falou de que: “riqueza boa é aquela que quanto mais a dividimos mais ela se multiplica”? Então se entendermos riqueza pensando junto com Jesus o pobre é o rico e o rico é o pobre? Então o que é rico e o que é pobre? Hoje vemos uma minoria querendo produzir bastante riqueza e uma maioria querendo dividir pobreza. O país está dividido entre o que então? Entre rico pobre e pobre rico? E nós o que somos? Pobres ricos ou ricos pobres? Eis a questão das palavras. As mais inocentes são as mais perigosas. Palavras como disse Hölderlin, “as palavras são como parábolas, servem para fazer viver e servem para matar”. Portanto, usemos com cuidado as palavras. Então, como você se considera depois de tudo que polemizamos? Você quer empobrecer sua alma para ficar rico e viver num mundo de lágrimas, hipocrisia e violência ou quer enriquecer a vida e viver nesse oceano de sorrisos? Pois é! Nesta eleição está em disputa um menino de origem nobre e um menino de origem pobre. A escolha é sua. O Brasil está em suas mãos.

 



Escrito por oleotti às 19h05
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  O TEXTO ESTÁ TECENDO O NOSSO AMANHECER - Odemar Leotti

Eu gostaria de falar de tantas coisas, mas meu coração está ' parado,' perplexo, perante tanta infâmia. Parece ressoar a voz de Castro Alves quando lamentava a tripudiação dos hipócritas perante a frente dos incautos, dos trabalhadores, de tanta gente que nascem nesse país. Parece que estamos condenados a uma desgraça eterna. Uma escuridão sem fim. Parece que os senhores não abrem mão do mando do país, custe o que custar. São os desvairados que acham que são donos do país. Este país é de todos e o queremos pela democracia política. Aquela que os gregos inventaram para se livrarem do poder palaciano. Construir uma escrita que possa ser nosso texto. O texto onde não existe o grito triste das crianças, o gemer dos velhos perambulando pelas ruas e vielas apoiando-se nos cantos destas cidades, estas mesmas cidades que ajudaram a construir e que não podem habitá-la e quando podem lhes faltam o respeito e a dignidade humana que lhes proporcionem uma vida bela. Nosso texto não terá mães chorando na porta dos presídios por ver seus filhos sendo presos da miséria. Da miséria filosófica, da miséria religiosa hipócrita e perversa que não tem escrúpulos em embolsar o parco dinheiro dos pobres. Em nosso texto não haverá rios se perdendo na podridão que lhes transformam, tornando-os esgotos. No nosso texto a vida poderá sorrir ao amanhecer e repousar ao anoitecer. Anoitecer a tecer cada minuto do descanso da mente para que seu filho repouse e acorde sabendo que irá produzir para todos e não para uma minoria sedenta de lucros para suas mulheres devassas e vazias. Nosso texto não trará consigo os dias cinzentos em que a elite falida e cartorial necessita criar para sobreviver em sua pobreza de espírito. Criminosos que produzem outros criminosos. Em nosso texto não haverá espaço para filas de hospitais. As crianças poderão sorrir nas ruas e não vão precisar vender chicletes. Nem seus coleguinhas serão assaltados. Em nosso texto haverá somente a poesia. Nele as coisas aparecem por magia e a magia se concretiza pelo fluir constante das coisas significadas e que estarão a serviço do prazer da vida. As coisas quando não são buscadas pela poesia da vida volta com sede de vingança e molesta todos aqueles que não as respeitarem. As coisas boas haverão de brotar neste país. Nem que custe o nosso sangue o preço de seu brotar de frutos. E quando um povo diz que prefere morrer que aceitar a injustiça aí começará a grande revolução. Foi assim no Irã: linchamento daqueles que humilharam o povo sofrido. Será assim em todos os lugares em que não deixam brotar a flor do fluxo da vida. O que será que quer a nossa elite parasitária? Será que querem ver um país em chamas? Será que somente assim cederão o direito de via aos brasileiros? Só sei de uma coisa. O texto está sendo tecido de muitos textos. Da humilhação da criança que é humilhada. Do discurso da elite que chama todos os trabalhadores e inclusive nosso presidente de "vagabundo". Deixe estar, tudo isso são fios que se entrelaçam e formarão o tecido, ou seja, o texto da libertação. Não libertação transcendental. Mas será ressuscitado o texto de Heráclito. O jogo de AION. O texto de Parmênides será esgarçado em farras públicas. Veremos o povo em gritos e sorrisos rasgando e esgarçando o texto que fecha o mundo. Estará nascendo então o texto do jogo da criança. Do jogo de uma liberdade que nunca poderá ser apropriado por nenhuma forma de explicação. Uma liberdade que será o próprio texto se abrindo para o mundo e rompendo as entranhas da alma coletiva e estatelando o mundo duro e fechado. Aí os homens voltarão como o filho pródigo para o berço de si mesmo. Nunca mais estará sob o véu do discurso transcendental em toda sua hediondez hipócrita fabricadora da ilusão platônica e kantiana. Nascerá o novo dia do novo texto. A Escrita do povo está tecendo. O ovo da serpente está chocando. O texto da vida nascerá um dia. Ele já está frutificando nos votos firmes que o LULA está recebendo. Ele já dá 'as caras' ainda adolescente, mas que não quer mais se misturar com o texto da podridão feito com as garras de homens asquerosos, abutres da nação. Uma elite que tem uma história que nunca deverá ser contada para as crianças. O texto está nascendo da dor da lama da periferia. Ele dança a dança do rap. Ele entoa na voz do funk que brinca com uma sexualidade roubada e mutilada, e por isso, cria o pudor dos que não gosta, mas a periferia gosta. O texto está nascendo na cantiga de ninar da mãe lacrimosa que nina a criança de barriga vazia. O texto está nascendo no choro da criança que não pode escapar de morrer soterrada. O texto nasce no canto dos que não tem mais com quem contar a não ser inventando de novo a vida. Uma vida que nascerá do seu próprio texto. Aí teremos nossa própria língua. Nossa própria escrita. Escrita que não é presa à cópia de uma origem certa por ser presa a um centro e que dá direito aos risos dos idiotas que acham que existe uma essência inicial. Da vida do 'nóis vai' está nascendo o texto. Como diz Carlos Valter, é melhor dizer 'nóis vai' e saber aonde ir do que dizer nós vamos e não saber para onde ir. Por isso é em tudo que existe de soluços, das cantigas, de cochichos transgressores, de fofocas demolidoras da origem das ordens do centro que se quer emanador de verdades das elites parasitárias. É das fendas, da lama do dia a dia. Do pó preto que temos que respirar. Da dor sufocada que temos que agüentar. Do barraco pequeno que a gente tem que morar. É aí que a nossa gente vai se afirmar. O beabá aberto e livre irá dar a tônica do nosso enredo. Os tambores irão rufar, as portas irão se abrir e o povo irá se encontrar para gritar que está nascendo a criança. Aí entenderão que o texto do povo, a escrita dos humilhados, a grande escrita da liberdade estará estrondando em grandes raios de vida. A praça irá se encher de gente, e a canção ressoará o canto que enxugará os olhos das mães sofridas, apoiará os velhos maltratados, carregará e cantará o ninar das crianças sem comida. É o texto que vai nascer um dia. O texto que será a escrita do poder do povo. É a escrita nascida de vários fragmentos de sangue, de lama de barranco. É o texto sujo de chão. Será a filosofia das margens a sufocar o centro castrador. E avisemos aos incrédulos que o texto está tecendo o nosso amanhecer. O texto ungido pela dor do povo. O texto está nascendo. A escrita do povo. A escrita de um novo poder. Ele não se localizará, não nunca. Ele será o alimentador do discurso do poder do povo. A nossa escrita está nascendo...

Foto:www.sivas.gov.tr/galeri/data/media/10/TECER_1.jpg

 

 



Escrito por oleotti às 22h44
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  Prá que nome? Julio Cézar Coelho

Se pensar, hesito. E ao hesitar, sinto as incertezas me absorvendo, me desconectando, me (de) batendo nas muralhas concretas construtos pelos homens. Começos a sentir dor, vêem marcas em meu corpo tatuadas por palavras desferidas, ao longo das trajetórias percorridas. Insano, olho ao redor e pergunto “Onde eu estou”? Talvez minha insanidade não se atente à ou às minhas indagações, pois não ouço mais (quem sabe meus ouvidos não foram feridos...).

Estou perdendo os sentidos. Sentir? O que é sentir? Sabia sentar, ouvir, escrever, repetir. Falar? Falava sim, mas eram palavras que não saíam de mim e sim do SIM aprovado pelo outro. Tentei numa busca frenética e lisérgica, cruzar as fronteiras que me aprisionavam, que introjetavam e me faziam ser a voz e o espelho do algoz.
Vi-me tendo que viver e ver uma face sem voz, um corpo mudo no mundo imundo... Corri, sei que corri, e, olhava para trás e via os algozes gritando suas palavras de ordem; só sabia correr, pois os fantasmas perseguidores não me causavam outra sensação a não ser dor.

E dessa dor, ah! De dor eles não entendem, pois não a sentem. O que é a dor? “É uma sensação que não deve ser sentida”, esta é a ordem, pois, “Só os fortes vencem”... E, dizem ainda “Querem saber a Verdade”? Olhem e leiam os livros... Eles contêm a verdade. Verdade? Foi quando, trêmulo, ao tentar balbuciar... consegui gritar “prefiro a minha insanidade”.

Foto:http://www.ensjo.net/joao/pensar-e-agir0.3.jpg



Escrito por oleotti às 14h26
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  JANGADA DE PALAVRAS

"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual.Suplicamos expressamente:não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,pois em tempo de desordem sangrenta,de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,de humanidade desumanizada,nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar .Nada É Impossível De Mudar",Brecht  

Como as pedras se arranjam e vivem juntas de forma separada, assim nós vamos escrevendo nossas formas de vivência. São juntando coisas, pertences velhos empoeirados da infância que se foi a partir da vida no semáforo na venda de chicletes. Foi ali que as coisas de menino se perderam. Juntar tudo isso com as coisas dos meus amigos de caminhada entre as pedras que nos sobraram do viver. As palavras sobem para os morros como um texto triste que violenta as formas construídas duramente pela angústia da aridez da sobra dos que reparte algo minguado, fruto da partilha de mínimos homens que nos detestam. Nesta subida sobem pessoas e coisas. Sobem em forma de um texto perverso. Ali já em cima torna vivência pela magia poética dos fazedores de tudo sobre poucas coisas. O texto vai cozendo o sentido fragilizado e atacado ininterruptamente pela mídia que faz sua instalação perversa de sentidos feitos por palavras mortais. Mas neste caldeirão de palavras vai se cozinhando a vida. Vai sendo tecido textos e mais textos que as máquinas desejantes vão tecendo linha a linha, ponto a ponto, se cruzando, roçando um fio no outro fio. Vai formando textos mais perversos ainda ao lado de textos que não desistem de suas formas meigas e belas, fazendo brotar a vida em fluxos. Dançando a dança da vida os textos vão se cruzando na voz do velho, do moço da criança. É o conselho da mãe preocupada, do padre comprometido, do velho escolado, mas também do jovem desarazoado, de seu sangue fervente e teimoso. Dele nasce à vontade da transgressão, da insubordinação a uma vida crua e triste. Quase inodora, sem fragor, sem paladar, sem beleza para o olhar e com ruídos que quase não vale a pena dar ouvido. A vida vai cozinhando no caldeirão do texto misturado. Os cinco sentidos se cumpliciam em sua relação com os sentidos construído em suas formas provisórias e nas suas pequenas áreas de manejo. Vai assim brotando a vida na dança da negra que teima em não perder sua sensualidade. Vai se dando em um fluxo que não se quis entendido numa taxonomia aristotélica que a tenta fixar em um lugar classificado e hierarquizado. A vida se dá por fluxos contínuos, os quais temos que significar com palavras que embelezam a vida. Diz Hölderlin, pensador alemão do início do século XIX, que a vida se dá por abundância e não por miséria. A miséria nasce na fonte das palavras mal fabricada: pelas mãos guiadas por pensamentos desencarnados das alturas. A cobiça, a mesquinhez, a ganância, a perversidade do espírito, faz de uma forma já mesquinha por si pela forma homogênea e transcendental que se opõe a tudo que é mundano: o corpo, a sensibilidade, a sensualidade, a erótica do corpo, enfim a tudo que nos faz gente, nos faz bicho. Se não bastasse essa forma de pensar nos educar para guardar nossos desejos para um amanhã que nunca chega transformando a vida em uma completa procrastinação, ainda vem os abutres que não se cansam de utilizar-se dos jargões produzidos por essa forma ilustrada de degenerar os sentidos das pessoas, a as fazem então em sua versão perversa ao extremo. Utilizam-se desses saberes pastorais para tirarem usufruto para alimentar suas sanhas de consumo insaciáveis produzidas por um corpo moldado na vida vazia e pobre que não sabe fazer um samba, um funk, uma modinha de viola. É meus amigos, o chamado de povo, que já foi chamado de demos, tem uma história rica, trágica e bela para lhes contar. Porém esta história também faz chorar por entender que a riqueza, a tragédia e a beleza são três coisas que fizeram e fazem parte do dia a dia desse povo, desse demo que tem uma história de um lugar sempre provisório de produzir seu saber sobre o nada oferecido. Devemos desentender para poder entender. Desentender supõe-se se livrar dessa parafernália filosófica que nos sufoca a dois mil ê quinhentos anos. Saiba que a vida no ocidente tem uma trajetória que pode nos ensinar que os saberes são produzidos em uma natureza que é uma grande oficina e não uma natureza que se quer das alturas que viria para regenera-la. Essa oposição entre o Bem e o Mal, foi à criação perversa que instituiu o mundo que hora se defronta com sua grande hora. Pois saibamos um pouco como podemos entender essa longa e penosa história do saber e das formas com que ela chega até nós. E descem para a cidade. O que é a cidade? É a paisagem para nossos olhos. Olhos de corpos que vivem mais perto do céu. Então as palavras e as pedras quando soltas se juntam numa grande orquestração e formam a textura do chão batido e a tessitura das palavras que fazem brotar a vida na aridez do chão que sobrou. Somos as subjetivades tentando se coadunar com as formas coletivas de existência. Somos o povo que se denomina de anônimos. Como que se fosse algo invisível aos olhos. Mas as palavras se resvalam uma nas outras e se contaminam. A vida vai se formando em outro estilo de viver como fruto de nosso texto. Nossa jangada de palavras vai sendo empurrada para nosso oceano.A vida está renascendo. Como diz Jurandir Freire Costa ao pensar junto com Foucault, ela está renascendo através da escrita do dia a dia. Uma escrita empoeirada, de chão batido, cheio de sorrisos de crianças que não cedem nunca às tentativas de faze-las serem tristes. Nossa jangada está sendo empurrada para o mar. Crianças, e adultos todos empurram essa jangada para oceano de uma existência que será parida cheia de contaminações de nosso viver. De nosso viver sob as marcas das botas da arrogância do saber que se quer superior.

Foto:www.unb.br/fau/pos_graduacao/cadernos_eletronicos/arte/fig5.jpg 

Odemar Leotti é Mestre em História pela UNICAMP. Atualmente está lotado no Departamento de História da UFMT.

 



Escrito por oleotti às 00h21
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  Infância... Lembranças... Cristiane Araújo Costa

Alegria... Doces... Alegrias...

Brincadeiras... Brinquedos... Folguedos...

Mundo cheio de sonhos...
Preocupação, onde está? Não existe...
Tudo se realiza... Realizações em nossa imaginação...
Nossa!!!
A imaginação se faz presente...
Quanta criatividade...
Tristeza... O que é esta palavra?
Estou tão feliz...
Vamos brincar agora?
Esqueci-me...
Já estávamos brincando...
Estávamos sonhando...
Sonhando com a realização de nossos sonhos...
Sonhos... Aspirações... Desejos...
Já se apresentaram os conjuntos de imagens ao nosso espírito tão criança...
Os sonhos são realizáveis sabia!!!
Que bom ainda podemos sonhar...
E assim seguiremos...
Seguiremos sonhando...
Seguiremos brincando...
Seguiremos crianças...
Crianças vivendo...
Assim seguiremos...
Crianças... Crianças...
Eternas crianças!!!

 



Escrito por oleotti às 23h08
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